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Recuperação Judicial no Brasil: por que tantas empresas estão entrando em crise?

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O problema vai muito além da política

Nos últimos anos, o brasileiro passou a se acostumar com uma notícia que deveria chamar a atenção de empresários, investidores e consumidores: empresas conhecidas entrando com pedidos de recuperação judicial.

Quando uma grande companhia anuncia uma recuperação judicial, rapidamente surgem explicações simplificadas.

“É culpa dos juros.”

“É culpa do governo.”

“É culpa dos impostos.”

“A empresa foi mal administrada.”

Na prática, a realidade empresarial é muito mais complexa.

Uma recuperação judicial raramente acontece por causa de um único fator. Normalmente ela é o resultado de uma combinação de endividamento, perda de margem, dificuldade de geração de caixa, aumento do custo financeiro, crescimento mal financiado, mudanças no mercado e decisões tomadas anos antes.

Para entender o fenômeno, primeiro precisamos entender uma diferença fundamental:

uma empresa pode vender muito, ter patrimônio e até apresentar lucro contábil — e mesmo assim ficar sem dinheiro para pagar suas obrigações.

E é justamente aí que muitas crises começam.

Os números mostram que existe um problema real

Os dados recentes ajudam a dimensionar o fenômeno.

Segundo levantamento da Serasa Experian, 2025 terminou com 2.466 CNPJs envolvidos em processos de recuperação judicial, crescimento de 13% em relação ao ano anterior e o maior número da série histórica.

Ao mesmo tempo, o Brasil encerrou 2025 com aproximadamente 8,9 milhões de empresas inadimplentes, acumulando cerca de R$ 213 bilhões em dívidas negativadas.

Portanto, não estamos falando apenas de algumas empresas famosas que apareceram no noticiário.

Existe uma pressão financeira relevante atingindo uma parcela significativa do setor empresarial brasileiro.

Mas por quê?

O primeiro problema: dinheiro ficou caro     

Para entender uma empresa endividada, é preciso compreender o efeito dos juros.

Imagine uma companhia que possui R$ 100 milhões em dívidas.

Se o custo financeiro médio dessa dívida fosse de 8% ao ano, seriam aproximadamente R$ 8 milhões anuais em juros.

Se esse custo passa para 16%, estamos falando de R$ 16 milhões.

A empresa pode continuar com as mesmas fábricas, os mesmos funcionários e os mesmos clientes.

Mas agora precisa gerar R$ 8 milhões adicionais apenas para suportar a diferença do custo financeiro, considerando esse exemplo simplificado.

É por isso que períodos prolongados de crédito caro pressionam principalmente empresas que já estavam muito alavancadas.

Dados do Banco Central mostram que o Indicador de Custo do Crédito (ICC) médio ajustado passou de 19,84% em 2024 para 20,93% em 2025, refletindo principalmente aumento do custo de captação e da inadimplência.

O juro alto, portanto, não necessariamente cria sozinho o problema.

Muitas vezes ele agrava ou revela um problema de endividamento que já existia.

O segundo problema: muitas empresas cresceram utilizando dívida

Existe uma frase que todo empresário deveria conhecer:

crescimento consome caixa.

Parece contraditório, mas uma empresa pode aumentar suas vendas e piorar sua situação financeira.

Imagine uma indústria que venda R$ 10 milhões por mês e decida crescer para R$ 15 milhões.

Para vender mais, provavelmente precisará:

comprar mais matéria-prima;

aumentar estoques;

contratar funcionários;

ampliar estrutura;

conceder prazo aos clientes;

investir em máquinas e equipamentos.

Grande parte desses desembolsos acontece antes de o dinheiro das novas vendas entrar no caixa.

Surge então a necessidade de capital de giro.

Se esse crescimento for financiado predominantemente por empréstimos, antecipações, fornecedores ou linhas bancárias de curto prazo, a empresa pode entrar em uma armadilha:

quanto mais cresce, mais dinheiro precisa tomar emprestado.

Enquanto o crédito está barato e disponível, o modelo parece funcionar.

Quando o crédito encarece ou diminui, aparece o problema.

Faturamento não significa geração de caixa

Este talvez seja um dos maiores equívocos na análise de empresas.

Uma companhia pode anunciar:

“Faturamos R$ 500 milhões.”

Isso parece excelente.

Mas precisamos fazer outra pergunta:

quanto desses R$ 500 milhões efetivamente virou caixa disponível?

Da receita saem mercadorias, matérias-primas, salários, impostos, fretes, aluguel, despesas administrativas, investimentos e juros.

Além disso, existe o descasamento de prazos.

Imagine uma empresa que:

compra pagando em 30 dias;

mantém mercadoria 60 dias no estoque;

e vende recebendo em 90 dias.

Existe um intervalo enorme entre pagar e receber.

Esse intervalo precisa ser financiado.

É o chamado capital de giro.

Quanto maior a operação, maior pode ser essa necessidade.

A dívida antiga encontra juros novos

Outro fenômeno importante acontece quando empresas contrataram dívidas em períodos de juros menores.

Uma dívida raramente permanece para sempre nas mesmas condições.

Ela vence.

Precisa ser renovada.

É o chamado refinanciamento.

Imagine uma empresa que tenha R$ 200 milhões em dívidas vencendo nos próximos dois anos.

Quando essas dívidas foram contratadas, o custo financeiro era relativamente baixo.

Na renovação, bancos e investidores podem exigir taxas muito maiores.

O problema passa a ser matemático.

Se a empresa gera R$ 30 milhões por ano de resultado operacional e passa a gastar R$ 35 milhões com juros e amortizações, existe uma equação que simplesmente não fecha.

Independentemente de ideologia política.

Margem pequena + dívida alta = combinação perigosa

Duas empresas podem faturar R$ 1 bilhão e possuir situações completamente diferentes.

A empresa A gera R$ 150 milhões de resultado operacional.

A empresa B gera apenas R$ 30 milhões.

Se ambas possuem R$ 300 milhões de dívida, o risco financeiro delas é completamente diferente.

É por isso que olhar apenas faturamento pode ser enganoso.

Precisamos observar principalmente:

margem operacional + geração de caixa + endividamento + custo da dívida + vencimentos.

Quando essas variáveis deixam de conversar entre si, começa a deterioração financeira.

O problema tributário também existe — mas não explica tudo

O Brasil possui um sistema tributário complexo e historicamente oneroso para diversos setores.

Tributos afetam preços, margens, investimentos e capital de giro.

Isso é relevante.

Mas seria tecnicamente incorreto afirmar que toda recuperação judicial acontece simplesmente porque “a empresa paga muito imposto”.

Empresas concorrentes, submetidas muitas vezes ao mesmo ambiente tributário, podem apresentar resultados completamente diferentes.

A estrutura tributária é uma parte da equação.

Gestão financeira, produtividade, estrutura de capital, margem, governança e estratégia também são.

A pandemia deixou consequências que demoraram para aparecer

Outro erro é imaginar que um choque econômico termina quando termina o evento que o provocou.

Durante períodos de crise, muitas empresas renegociaram fornecedores, postergaram investimentos, contrataram crédito e alongaram dívidas.

Isso ajudou milhares de negócios a sobreviver.

Mas dívida postergada não desaparece.

Ela apenas muda de vencimento.

Nos anos seguintes, algumas empresas passaram a enfrentar simultaneamente:

dívidas antigas;

novos investimentos;

custos maiores;

juros elevados;

necessidade de capital de giro.

Em determinados casos, a recuperação judicial aparece anos depois do problema que iniciou o desequilíbrio.

Existem também erros empresariais

Precisamos falar disso.

Nem toda dificuldade empresarial pode ser atribuída ao cenário econômico.

Existem empresas que:

cresceram rápido demais;

fizeram aquisições ruins;

assumiram dívidas excessivas;

distribuíram recursos quando deveriam fortalecer o caixa;

mantiveram operações deficitárias;

não controlaram adequadamente custos e margens;

misturaram decisões patrimoniais com decisões operacionais;

ou simplesmente demoraram demais para reconhecer que existia um problema.

Quando o cenário econômico piora, empresas financeiramente frágeis normalmente sentem primeiro.

Uma boa economia pode esconder uma administração financeira ruim durante algum tempo.

Uma economia difícil costuma revelar rapidamente essas fragilidades.

 Então recuperação judicial significa falência?

Não.

Essa distinção é extremamente importante.

A recuperação judicial existe justamente para tentar evitar a falência de uma empresa economicamente viável que perdeu sua capacidade de cumprir normalmente suas obrigações.

A legislação brasileira permite que, dentro das regras previstas em lei, a companhia negocie e reorganize determinados passivos e apresente aos credores um plano de recuperação.

O objetivo é preservar uma atividade econômica que ainda possa ser viável, permitindo sua reorganização financeira.

Portanto:

recuperação judicial não significa necessariamente que a empresa acabou.

Significa que sua estrutura financeira chegou a um ponto em que precisa ser reorganizada.

Mas também não significa que a empresa certamente será salva.

Se o negócio operacionalmente não consegue gerar resultados suficientes, simplesmente renegociar dívidas pode apenas adiar o problema.

 

O verdadeiro problema normalmente aparece no fluxo de caixa

Depois de anos trabalhando com números empresariais, existe uma pergunta que considero fundamental:

a operação gera caixa suficiente para sustentar a estrutura da empresa e suas dívidas?

Porque faturamento impressiona.

Patrimônio transmite segurança.

Lucro contábil parece tranquilizador.

Mas é o caixa que paga:

salários;

fornecedores;

impostos;

parcelas;

juros;

investimentos;

e dividendos.

Quando uma empresa começa a utilizar dívida nova constantemente para pagar dívida antiga ou despesas correntes, surge um importante sinal de alerta.

Não significa automaticamente insolvência.

Mas significa que sua estrutura financeira precisa ser analisada.

A recuperação judicial geralmente começa muito antes do processo judicial

Essa talvez seja a principal mensagem deste artigo.

Uma empresa não entra em recuperação judicial no dia em que protocola o pedido.

Na maioria das vezes, sua recuperação judicial começou financeiramente meses ou anos antes.

Ela começou quando:

a dívida passou a crescer mais rapidamente que a geração de caixa;

a margem começou a cair;

o estoque aumentou sem aumento proporcional das vendas;

clientes passaram a demorar mais para pagar;

a empresa começou a antecipar recebíveis continuamente;

empréstimos de curto prazo passaram a financiar investimentos de longo prazo;

ou novos empréstimos passaram a pagar empréstimos anteriores.

O processo judicial é apenas o momento em que uma deterioração financeira acumulada se torna formal e pública.

Afinal, de quem é a culpa?

Provavelmente esta é a pergunta errada.

É muito confortável atribuir todos os problemas empresariais ao governo atual, ao anterior ou ao próximo.

Política econômica importa.

Juros importam.

Tributação importa.

Inflação importa.

Câmbio importa.

Regulação importa.

Mas decisões empresariais também importam.

Estrutura de capital importa.

Gestão de caixa importa.

Margem importa.

Governança importa.

Planejamento importa.

Uma análise tecnicamente responsável precisa separar ambiente econômico de decisões empresariais.

O ambiente pode aumentar ou diminuir a dificuldade.

Mas empresas diferentes atravessam o mesmo ambiente com estruturas financeiras completamente diferentes.

A principal lição para o empresário

Talvez o aumento das recuperações judiciais brasileiras deixe uma lição importante principalmente para pequenas e médias empresas.

Não espere faltar dinheiro para descobrir que existe um problema financeiro.

Acompanhe mensalmente:

faturamento, margem bruta, resultado operacional, geração de caixa, contas a receber, contas a pagar, estoque, endividamento, custo médio das dívidas e necessidade de capital de giro.

E principalmente faça projeções.

Uma empresa normalmente não quebra porque apresentou prejuízo em determinado mês.

Ela entra em dificuldades quando perde a capacidade de financiar sua operação e cumprir seus compromissos.

Por isso, gestão financeira não deveria servir apenas para explicar o que aconteceu.

Ela deveria mostrar antecipadamente o que poderá acontecer.

Essa é a diferença entre administrar olhando pelo retrovisor e administrar olhando para a estrada.

Conclusão

O crescimento das recuperações judiciais no Brasil não possui uma explicação única.

Estamos observando o encontro de diversos fatores: empresas endividadas, crédito caro, necessidade de capital de giro, margens pressionadas, mudanças de mercado, passivos acumulados e, em determinados casos, decisões empresariais equivocadas.

Transformar esse assunto simplesmente em uma discussão entre direita e esquerda empobrece um problema que é essencialmente econômico, financeiro e empresarial.

Governos mudam.

Ciclos econômicos mudam.

Taxas de juros mudam.

Mas uma regra empresarial permanece:

uma empresa financeiramente saudável precisa gerar resultado, transformar esse resultado em caixa e manter seu endividamento compatível com sua capacidade de pagamento.

Quando essas três condições deixam de coexistir, o tamanho da empresa deixa de ser proteção.

E é exatamente por isso que até grandes companhias podem chegar à recuperação judicial.

Alguns dos maiores casos de recuperação judicial do Brasil

Os valores abaixo são aproximados e referem-se ao montante divulgado nos respectivos processos ou levantamentos da época. A comparação deve ser feita com cautela, pois o conceito e o perímetro das dívidas podem variar de um processo para outro.

Orivaldo Oliveira Souza
Consultor Financeiro e Empresarial 

Fontes e referências

  • Serasa Experian — Indicador de Falências e Recuperações Judiciais.

  • Serasa Experian — Indicador de Inadimplência das Empresas.

  • Banco Central do Brasil — Relatório de Estabilidade Financeira, maio de 2026.

  • Lei nº 11.101/2005 — Recuperação Judicial, Extrajudicial e Falência.

  • Lei nº 14.112/2020 — Atualização da legislação de recuperação judicial e falências.

  • Informações públicas e comunicados referentes aos processos de recuperação judicial das empresas mencionadas.

 

 

 

 

 

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